Esperar…
A chatice de nunca ter tido que esperar por ti é que depois daquilo passei a esperar para sempre.
Ai esta Tânia!
“Com um marcador preto traçou-lhe círculos no peito, com um bisturi cortou-lhe a pele elástica e leitosa, com um olhar apreciativo coseu-a. Quando ela acordou, fez-lhe uma carícia nos cabelos rubros e explicou-lhe como seria a vida daí em diante. Ela quis beijá-lo, mas não o fez, guardando-se para o ex-amante, a quem serviria a sua metamorfose como um prato frio. Voltou para casa com passinhos de gueixa, porque o seu centro de gravidade mudara e ainda não encontrara o justo equilíbrio. Levou a chave à porta e o esforço de levantar o braço fê-la sorrir – sentia-se uma boneca presa a um marionetista invisível. Passou as noites seguintes imóvel na cama, contemplando a sua nova topografia, envolta em faixas brancas como um busto de gesso. Poderiam expô-la numa galeria, agora, e Chris seria o primeiro a aplaudi-la. A mulher artificial.
Adriana tinha queda por pés-rapados e oportunistas. O homem que lhe deu um novo corpo foi o único que, em vez de lhe pedir alguma coisa, se dispôs a oferecer-lhe tudo; ela, porém, ainda não estava pronta para receber, primeiro tinha de ajustar contas com o passado. Precisava de closure, um ritual para encerrar definitivamente a sua história com Chris, que não era pé-rapado, apenas oportunista.
Conheceram-se através de amigos comuns, um casal de franceses que os convidou para uma festa em noite de Santo António. Julie e Loïc viviam numa casa na Graça, com paredes vermelhas e um pátio bordejado de flores. Adriana passou o serão a conversar com Chris, cuja pronúncia de Oxford a deslumbrou, além dos seus atributos físicos mais óbvios: Chris tinha um tronco imenso e imberbe, de omoplatas assimétricas, um corpo de 1,90m criado a duches frios, jogos de râguebi e campeonatos de remo. Depois do jantar, Loïc pôs um dos seus CD de techno e entregou-se a uma dança desarticulada com Julie; Chris e Adriana ficaram a observá-los, saboreando um vetusto vinho do Porto. Como a música estava muito alto, ressoando na noite quente do pátio lisboeta, Chris sussurrava-lhe ao ouvido. Tomada por um impulso, Adriana encostou as mãos às omoplatas dele – uma subida e saliente, a outra retraída e enviesada – e pousou-lhe um beijo no pescoço nu. Sem a fitar, ele ofereceu-se à boca dela. «Descobriste o meu ponto fraco», sussurrou.
O rosto de Loïc surgiu entre eles, embriagado. Tirando as medidas ao decote de Adriana, perguntou-lhe, numa voz entaramelada: «Os teus seios são perfeitos como parecem?» Adriana fixou-o, séria. Inspirou fundo e compôs o rosto num sorriso que se queria enigmático e confirmativo. Antes que Loïc pudesse acrescentar alguma coisa, Chris arrebatou-a e conduziu-a para o quarto de hóspedes. Deitou-a no colchão estendido nas traves do soalho e, quando ela sentiu as mãos aproximarem-se do decote, levantou-se, acendeu a luz ambarina do candeeiro e apagou o foco clínico do teto. Fechou os olhos para não ver a cara de Chris quando lhe despisse o sutiã e percebesse que o 34B afinal era um 32A, ilusão criada por duas bolsas de gel inseridas nas copas. Os gestos dele interromperam-se por uma fração de segundo. Adriana abriu os olhos e ele sorriu, abanando a cabeça quase impercetivelmente. «Vocês e as vossas artimanhas», murmurou.
Para o calar, ela fez o que fazia sempre para compensar a falta de formas: esmerou-se, provando que é bem verdade que as mulheres perfeitas são monos na cama, e as imperfeitas, despudoradas. Ele veio-se e ficou dentro dela, com o coração sincopado a querer fugir do peito assimétrico, num orgasmo longuíssimo em que Adriana o sentiu todo – cada espasmo, cada estremecimento – como se o orgasmo fosse seu. Instantes depois, ela ergueu-se para se vestir, mas ele puxou-a para os seus braços e disse: «Fica.» Cobriu-a de beijos ternos como se fossem namorados e não amantes recém-descobertos, sussurrando: «A nossa simetria é perfeita.»
Quando, de manhã, ele acordou com o sexo dentro da boca dela, afastou-a de si, levantou-lhe o queixo com um gesto suave e disse, solene: «Vamos fazer um filho.» Adriana fitou-o, aturdida. Com quatro palavras banais, Chris compusera uma frase que a apanhou como o laço do vaqueiro apanha uma rês incauta, e ela entregou-se à ilusão de que aquele homem era capaz de amar. O seu cérebro, porém, era mais lúcido do que o coração e, quando sentiu o sexo de Chris começar a contrair-se para ir buscar o esperma, desencaixou-se dele num gesto rápido e masturbou-o. Ele veio-se nas mãos dela e, em pleno orgasmo, Adriana leu-lhe a perplexidade nos olhos.
Ela preferia a franqueza às falsas expetativas e, durante um ano, acolheu-o em sua casa sempre que ele lhe enviava um e-mail a dizer que ia a Lisboa, convencida de que, com o tempo, a sua presença se tornaria indispensável e Chris a chamaria para viver consigo em Londres. No final do verão, recebeu um convite para um churrasco no apartamento dele, em Notting Hill. Quando a excitação amainou, percebeu, frustrada, que era impossível arranjar voos para daí a uma semana. Perguntou-se se ele teria feito de propósito, enviado o convite sabendo que não passaria de uma figura de estilo. Depois do dito barbecue, falaram uma vez ao telefone e ela achou-o distante; provavelmente conhecera alguém e estava nesse momento a dizer a outra mulher Vamos fazer um filho. O contato reduziu-se, daí em diante, a SMS frios e formais.
Um dia, Adriana estava a almoçar à frente da televisão, quando passou uma reportagem sobre o Dia do Vinho do Porto. As imagens mostravam um grupo de estrangeiros rosados sorrindo à beira-Tejo, em redor de cálices de tinto. Num dos vivos, viu Chris em grande plano e, quando a câmara fez zoom out, descobriu que, junto dele, se encontrava uma English rose. Estavam lado a lado, sem se tocarem, mas havia uma intimidade de amantes – namorados – entre os dois corpos. Como se tratava de um canal de notícias, a reportagem repetiu-se de hora a hora. Chris estava em Lisboa e acompanhado. Adriana pegou no telemóvel e enviou-lhe uma mensagem: «You look great on tv, every hour on the hour.» Ele ligou-lhe, explicando-se; ela respondeu: «Cresce e esquece-me, Chris.»
Assim foi, durante meses. Até que voltou a receber um e-mail dele.
Veste-se diante do espelho com gestos lentos e premeditados. Exatamente a mesma roupa que levava na noite em que ele lhe disse que a simetria entre os seus corpos era perfeita. Quer criar um efeito de déjà vu, que ele a veja e diga: É a mesma mulher, mas há algo que mudou. Tudo mudou, pensa, olhando-se ao espelho. Inspira fundo e apaga as luzes. Quando sai do táxi, à frente da Bica do Sapato, no Cais da Pedra, já Chris está há meia hora à sua espera. Ele levanta-se assim que a vê e fita-a com um olhar avaliador; os seus olhos escorregam até ao decote e, por uma fração de segundo, exprimem perplexidade. Ele estende as mãos e acolhe-a num abraço apertado, ao qual ela se submete; o perfume de Chris continua o mesmo, vertiginoso.
Adriana pede champanhe e os pratos e sobremesas mais caros da ementa. A cada gole de Moët & Chandon, vê Chris soltar os gestos. Quando a garrafa chega ao fim, ele ousa roçar os dedos nos lábios dela, que o deixa gravar-lhe na boca as impressões digitais. Os olhos dele perscrutam-na e Adriana quase acredita que é a sua alma que ele quer penetrar e não o corpo. O chão torna-se líquido e, quando ela julga que vai cair, Chris sussurra: «Vamos para tua casa?» «Não», responde, «um hotel.» A conta vem para a mesa e ela, que sempre se ofereceu para pagar metade, pousa os cotovelos no tampo e fita o rio escuro e espesso. Não mexe um músculo, apenas as suas pestanas batem a um lento e triste compasso. Apanham um táxi à frente da velha estação de Santa Apolónia. Ele puxa-a para os seus braços, ela afunda-se nas proporções de colosso, no calor da garrafa de champanhe que ele bebeu praticamente sozinho. Chris costumava dizer, a brincar, que ela era um cheap date, porque bebia muito pouco comparada com as inglesas; pois, hoje, não é um cheap date. Os dedos dele acariciam-lhe ao de leve o braço nu, num ritmo constante e encantatório. O taxista pergunta-lhes o destino. Ela diz o nome de um hotel e, desta feita, o seu critério não é o preço, a vingança, é simplesmente o simbolismo do endereço: Avenida da Liberdade.
Chris pede a melhor suite – como se já tivesse compreendido as regras do jogo e o preço que ela traz inscrito numa etiqueta que arrasta pelo chão a cada passo –, beija-a no elevador, abre a porta do quarto e afasta os reposteiros para o lado, acolhendo o clarão de Lisboa. A cama ilumina-se como o centro de um palco e a ópera que Adriana julgara cómica, subitamente, não a faz rir. Sente-se engolida por uma tristeza imensa. Ele beija-lhe o pescoço, as clavículas, o espaço entre as clavículas onde o sangue lateja. Tira-lhe o top pela cabeça e observa-a: o sutiã branco de renda que deixa ver o peito à transparência, os mamilos que se oferecem ao toque dele, a pele arrepiada. Desapertando-lhe o sutiã, dá um passo atrás para a contemplar. Ela é uma estátua, um busto perfeito numa galeria, e ele sorri, admirativo. «São lindas», diz, e palpando as mamas que antes não existiam, exclama: «São a tua cara.» E, de repente, Adriana percebe que Chris está confuso, já não sabe como se faz amor instantâneo, esquece-se de medir o pó, juntar água, mexer… Envolve-a num abraço mudo e, numa voz rouca, emocionada, sopra-lhe ao ouvido: «És extraordinária.»
Ela fita-o e, sentindo as lágrimas roçarem-lhe as pestanas, abana a cabeça: «Game’s over, Chris.» Ele não percebe. Observa-a, estupefato, enquanto ela pega no sutiã e passa os braços pelas alças, aperta o fecho atrás, veste o top e agarra na carteira. «Desculpa», diz, e contra todas as suas expetativas, o sentimento é sincero. Dirige-se para a porta. Leva a esperança de que ele a retenha, mas Chris permanece imóvel a meio do quarto, quando ela sai para o corredor e deixa o passado nas suas costas. O clique da porta a fechar-se é um derradeiro suspiro.
Apanha um táxi perante o olhar desconcertado do rececionista do hotel e o desinteresse da mulher de leste que lava o degrau da entrada. No silêncio denso das ruas que desfilam, desertas, pela janela do automóvel, Adriana pensa no homem que com um marcador preto lhe desenhou círculos no peito e, quando ela acordou, lhe fez uma carícia nos cabelos e explicou como seria a vida dali em diante. O homem que não queria cortá-la com um bisturi, porque a achava perfeita como a natureza a fizera.
No dia seguinte, procurá-lo-ia. Estava livre.”
Tânia Ganho, Perfeita Simetria, 2011
2011 morto, 2012 posto.
Dois mil e onze começou bem lá longe, e, por esta altura, a entrada no novo ano de dois mil e doze prepara-se de igual forma à dos anteriores. No fundo, no que aos preparativos diz respeito, tudo isto é um loop de normas e procedimentos. Já as coisas que acontecem nestas faixas anuais com 365 dias de duração são um reboliço cada vez maior. Nunca fui pessoa de fazer balanços de final de ano, é tempo perdido, e se nos lembramos de coisas boas, igualmente nos lembramos de coisas más, – a vida é dual como aqueles telemóveis – mas este meu querido ano de 2011 merece! Começou bem (começam sempre), até que…
“Até que”… nada! Sejamos honestos na vida, ou pelo menos uma vez por ano, são mais ou menos 78 esperanças médias de verdade ao longo de uma vida, não é assim tanto. Assim sendo um ano não deve ser relatado sobre texto, mas sim como resposta a um inquérito, é mais cru e, o mais importante, com menos rodeios.
2011
A grande verdade:
A distância é um ralo.
A grande mentira:
Uiiii…. Posso não responder? – Posso! Sou eu quem faz as regras.
A melhor coisa que fiz:
Não me lembro…
A pior coisa que fiz:
O que não fiz, claramente! – é daquelas respostas chapa cinco da revista Lux, talvez a minha vida tenha mais de cor-de-rosa do que aquilo que eu pensava.
A maior surpresa:
Um convite.
O óbvio:
Óbvio, óbvio e claro como água é que a vida tem mais de dinâmico do que estático.
O que não consegui:
Ir para Lisboa.
O que consegui:
Coisas que duram para a vida inteira.
Música:
Todas as do Shuggie Otis.
Pessoa que se revela cada vez mais importante:
A minha mãe.
2011 numa palavra:
Doismileonze
Agora apetece-me dizer:
“A VIDA É BELA, TU É QUE ÉS FEIO/A!”
Coisas que tive, que tenho, que eventualmente poderia ter e as que não tenho mesmo.
Há coisas que nunca tive. O não ter pode conjugar-se de três formas: (i) o não ter, e por isso leia-se não tive, não tenho e não terei, (ii) o não ter porque se escolheu outra coisa e, finalmente, (iii) o não ter incerto, ou seja, aquela coisa que se calhar até se tem, mas que não se sabe que se tem.
Destas três formas de não ter existe apenas uma que controlamos totalmente, a segunda. Optou-se. A faculdade de se poder escolher marcou presença e se não foi por aquele caminho que fomos é porque certamente existia um melhor. Quanto aos arrependimentos que daí possam advir, bem… não vou querer entrar nessa discussão, não vá, sei lá… arrepender-me, por exemplo.
Sobra-nos então o não ter em forma de axioma, o primeiro, e o não ter com uma distribuição de probabilidade situada entre 0 e 1, o terceiro. O primeiro surge de uma forma unilateral, é imposto, e por mais pinchos que se dê, e por mais que as nossas qualidades de estrebucho venham ao de cima, nunca na vida – nesta, e nas outras – iremos conseguir ter aquela coisa, o meu Pai é talvez o maior exemplo morto disso mesmo.
O terceiro, – porque nunca existem duas sem três, embora seja muito mais palpável o contrário (nunca existem três sem duas, isto sim) – que é talvez um sintoma comum a todos, é o aperceber-mo-nos, fora de tempo útil, que já não se tem, e como se isso de per si não fosse suficientemente desolador, quando tínhamos também não sabíamos disso. Ter e não saber é um handicap. Interpretar melhor as coisas? Precisa-se!
Para já, tenho este texto e uma grande vontade de ir dormir.
Fado, a Intagible Heritage of Humanity
Vamos ver se aquilo não acaba em…
j
… codfish waters.
A Cama
Ai a cama! Sou um gajo naturalmente bom na cama, e por isso entenda-se saber aproveitar o que ela me dá, descanso! Há quem diga que é bom na cama para enaltecer os seus dotes e/ou malabarismos sexuais, mas isso é coisa em que se é bom em todo o lado, ou então simplesmente não se o é. Mais, auto-avaliações deste tipo não se fazem, ponto! A cama é onde gosto de atracar o meu corpo, se puder ser por mais tempo do que as sete ou oito horas diárias recomendadas tanto melhor, afinal de contas não pago pelo “estacionamento” e quanto mais tempo metido nela, maior o proveito que retiro.
Cama para ser cama, para além de ter que ser obviamente cama, tem que ser também nossa. Toda a gente que se corrompeu com outras camas sabe que não existe nada como a nossa cama, pior é que ela anda sempre a par destes adultérios e como castigo, quando a ela se regressa, oferece-nos um daqueles arraiais de sono, que duram dez horas no mínimo, no fundo é como se ela nos dissesse: ”Sabes a quem pertences, não sabes? Então vê lá se não voltas a dormir fora de mim nos próximos tempos, sob pena de não chegares a horas ao trabalho quando tiveres uma reunião às nove da manhã.”
Quanto às experiências que por lá se passam, é talvez dos poucos sítios no mundo onde se pode sonhar acordado e também a dormir, onde se sua e igualmente se dorme. (…) A cama é um objecto, mas isso não significa que não seja uma senhora de respeito, repare-se que exige a utilização traje à medida para usufruir dela a 100%, e caso não se cumpra com o dresscode até se pode entrar na festa, mas acabaremos sempre por nos sentir colocados de parte e desconfortáveis, “Ai se eu tivesse trazido o meu pijaminha!”
Na verdade não há nada como a nossa CASA, mas só porque é lá que está a nossa cama. Não posso deixar de partilhar o seguinte: Porque é que a cama nos pisca o olho quando está fria e nos dá de chancas quando a coisa está quente tipo borralhinho? Ah, já sei! Cama é do género feminino, claro!